#7 - Bons filhos
Perguntam-me muitas vezes que milagres opero eu em casa para ter dois filhos tão ternos e dos quais nunca tenho de que me queixar. Eu sorrio e abano a cabeça porque por vezes a melhor forma de fazer boa figura é ficar calado e deixar que os outros tirem as ilações que entenderem.
Amo os meus filhos com todas as forças, mas, tivesse eu duas casas e já os tinha deixado numa com o pai para que eu pudesse ter paz alguns dias da semana.
Roupa espalhada, dramas de amigos e amigas, consolas, telemóveis, roupa preferida, discussões entre eles.
Se calhar até exagero. Não sei. Não tenho duas casas para confirmar se o faria.
A verdade sobre a maternidade perfeita está na mentira. É a mãe ideal aquela que sabe mentir, ajustar e omitir.
Aprendi isto com a Maria Rita, uma antiga colega de trabalho.
Há vários anos, eram os miúdos ainda bastante pequenos, quando entrou para o departamento a Maria Rita. Uma mulher bem apessoada, simpática, sorridente. Tinha um ar descansado e arranjado. Contava que tinha dois filhos. Tal como eu, um menino e uma menina. Relatava-nos as peripécias das crianças fazendo-os parecer nada menos do que anjos. Mascarava episódios inócuos de candura e pequenos detalhes que faziam as medidas das outras mães que a ouviam.
Eu, de olheiras e manchas na camisola, fazia-me interessada pelas histórias da colega nova, invejando-a, queixando-me da minha falta de sorte, culpando-me pela minha falta de paciência que seria certamente o motivo para que as minhas crianças não se comportassem como as dela.
Passei muito mal por mais de um ano. Sentindo-me má mãe, não só pelo caos que estava a minha vida e a minha casa, mas porque me queixava constantemente dos meus filhos, que pareciam o diabo ao pé daqueles saídos de um ventre notoriamente escolhido pelo Criador como eleito para trazer ao mundo pessoas melhores e escolhidas a dedo.
Uma tarde fui ao supermercado. Estava exausta, à beira do já conhecido ataque de nervos e, antes que me saltasse a tampa, decidi deixar os miúdos com o Paulo e fui sozinha. Estacionei, saí do carro e ia perdida no meu mundo, a repensar todos os conselhos que a Maria Rita me havia dado há dois dias sobre atividades para fazer em casa com as crianças nos dias de chuva. Brincadeiras que faziam tantas vezes lá em casa e que entretinham os petizes horas e horas. Na minha casa resultavam em desastre e gritos.
É nessa altura que ouço uma voz familiar. Essa voz familiar estava passada da bolha. Olhei e vi o carro da Maria Rita. Ela estava voltada para o banco traseiro e gritava com todas as forças. Ouvia-se bem porque era cedo, ainda estavam poucos carros no parque e a pobre, de tão desnorteada que estava, nem se tinha dado conta de que tinha uma parte do vidro aberto. Berrava para o mais velho que, a considerar pela mão que segurava a bochecha esquerda, já tinha levado uma lambadona nas trombas. A Maria Rita vociferava que estava farta de lhes dizer que parassem quietos, que não podia ir com eles a lado nenhum, que não se sabiam comportar, que só faziam merda, que deviam era ir ali com o pai que era outro calão que só fazia merda, que um dia destes se passava de vez e se punha a andar e eles ainda iam ver como era viver sem ela.
Nem pensei que estava parada em frente ao carro, especada a assistir àquilo. Quando caí em mim pus-me a andar antes que fosse vista.
Esqueci-me do que ia comprar e andei a vaguear no supermercado até que me lembrasse do que fazia falta em casa. Na minha cabeça passava uma e outra vez aquele episódio. A Maria Rita composta a contar alegrias das crianças e a Maria Rita possuída pelas forças do mal capaz de enfiar uma cabeçada à cais do Sodré a um gaiato com pouco mais de cinco anos.
Como se de um filme de Hollywood se tratasse, esbarrei com o carrinho dela. Ela desarrumada na roupa, mas numa personagem sorridente. Apresentou-me as crianças que faziam cara de anjo como se o que eu assisti tivesse acontecido apenas na minha cabeça. Uma família de atores. Parecia que a única regra inquebrável era evitar que o bolor que havia dentro de casa fosse visto por quem estava do lado de fora.
Perguntou-me pelos meus filhos, sugeriu que um dia nos encontrássemos para um lanche com todos e eu fui acenando com a cabeça, boquiaberta com a capacidade teatral de toda aquela família.
Não me lembro do caminho para casa.
Lembro-me apenas de pensar, quando estava a estacionar à porta de casa, que a regra infalível da boa maternidade estava na falácia. Aquela que contasse a melhor história ganhava. Afinal de contas quem estaria à espreita para contestar.
Desse dia em diante deixei de me queixar dos miúdos. As outras colegas repararam. Davam nota disso especialmente quando a Maria Rita contava mais uma das suas fantásticas tardes. Fui sorrindo e dizendo que as coisas estavam a melhorar, que tinha comprado um par de livros com dicas fantásticas que me estavam a ajudar de sobremaneira. Elas pediam os nomes dos livros, eu dizia que tinha de apontar porque era péssima com o títulos. Nunca cheguei a dar.
Os miúdos foram crescendo e a Maria Rita acabou por ir para outra empresa. Ali não havia promoções à espera e um concorrente apareceu com mais dinheiro e mais oportunidades (disse ela). Vim a saber mais tarde que foi para outra casa fazer o mesmo por mais meia dúzia de tostões. Tentou a velha carta do bluff para ver se lhe davam o que queria. Não funcionou, mas também não perdeu, visto que foi para o mesmo, fazer o mesmo e mentir o mesmo.
Das trapaças dos meus filhos já ninguém se lembra. O tempo vai levando quase tudo. Resolveu-se. São bons alunos, nenhum se droga e nenhum faz vídeos para o Tic-Toc nem para o Youtube. Não há que falar.
A Maria Rita de vez em quanto vem à baila, as saudades que todas têm dela e das crianças que nunca conheceram. A pena que foi deixá-la ir, mais a empresa não sabe reter talentos depois é assim, ficam as outras casas com os melhores. Dizem isto sem compreender que tal frase faz delas o pior que o mercado tem para dar.
As pessoas, tantas vezes, nem para elas são espertas que baste.
Em resumo, com o tempo fui-me tornando uma mãe excecional quando não estou em casa nem perto dos meus filhos. Conto só o que é bom e o que fazem bem porque, apesar de me darem cabo da cabeça, são miúdos carinhosos, bons alunos e não me arranjam chatices com ninguém. Querem viajar e que lhes arranje um gato e eu lá lhes vou explicando que as viagens são poucas porque tenho de os sustentar e que o gato logo se vê, já me chega o cão que enche o sofá de pelos e que é passeado à vez por mim e pelo pai, que somos frouxos nas exigências e secretamente nos apegámos mais ao bicho do que eles.
Quando me perguntam se eles não são isto ou aquilo, minto, desvio a conversa, digo que não tenho razão de queixa, que fazem as coisas normais de dois adolescentes, que estão a crescer e o pouco de menos bom lhes vai passar ainda que me pareça que o mais novo possa vir a ser um bocado parvo.
Admiro a forma como me conduzo nesses momentos, sinto-me quase uma Maria Rita de escritório, a da vida real era uma histérica.


